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22 de abril de 2011

CRÔNICAS - Noite (Gil Salomon)

NOITE
 Gil Salomon

A noite foi se instalando lentamente, sorrateiramente. Nem percebemos quando começou a escurecer. Há tão pouco tempo corríamos como crianças, absortos em nossa primitiva irresponsabilidade. Rolávamos nossa inocência e nossa ignorância pelos gramados e encostas do mundo. Descemos das árvores, firmamos nossas frágeis pernas e exploramos as savanas. Buscamos a segurança das cavernas, mas logo começamos a construir as primeiras cabanas. Alguns galhos trançados cobertos com folhas a nos proteger do sol e das intempéries. Nômades, fomos descobrindo o mundo, coletando alimentos e buscando segurança para nossa prole. Do animal que nos gerou foi, lentamente, despertando rudimentos de consciência. Começamos a perceber e a nos encantar com o que nos cercava. Nossas fisionomias refletidas nos límpidos córregos de então ainda não entendiam a magia que nos envolvia. Uma lenta aurora, uma frágil luz, nos levava em direção ao entendimento da passagem do tempo. Provamos do fruto da árvore da ciência, o fruto proibido descrito no Gênesis bíblico.
Os grunhidos da fera deram lugar as primeiras palavras e com elas uma tentativa de entender o tosco universo em que vivíamos. Qual terá sido a primeira palavra que pronunciamos? Em que momento da nossa caminhada conseguimos formular as primeiras perguntas? Quando a linguagem deixou de ser um elemento apenas de comunicação a serviço da sobrevivência do grupo e passou a descrever sentimentos, histórias e foi posta a serviço do belo?
Milênios depois nós percebemos que vivíamos numa grande e lendária babel. Tornamo-nos diferentes, física e culturalmente. Numa tentativa de entender os mistérios do universo o povoamos de entidades abstratas e as chamamos de deuses. Potencializamos nesses deuses nossas próprias qualidades e vícios. Criamos religiões fortemente atreladas ao domínio político das tribos ou nações que iam se formando. Em nossa primitiva ignorância, em sacrifício aos deuses, oferecíamos os frutos do trabalho, animais e, em algumas culturas, até imolávamos seres humanos para aplacar sua ira.
Das manifestações artísticas rabiscadas nas paredes das cavernas, numa tentativa de contar as gerações futuras sobre a rotina dos seus dias, até nossas modernas galerias de arte, continuamos ávidos por deixar nossa marca no tempo. Dos primeiros registros conhecidos da escrita suméria, cuneiforme, às nuvens digitais que procuram armazenar todo o conhecimento humano, percebe-se a insaciável curiosidade do espírito humano. Acumulamos tanto saber, porém falta-nos ainda a sabedoria para usarmos esse saber em benefício próprio.
Pensando nas primeiras flautas, esculpidas em ossos, na percepção musical do vento nas montanhas, savanas ou geladas estepes, comparando-as aos modernos e sofisticados instrumentos das nossas orquestras que reproduzem o que imaginamos como música celestial, lamento perceber que caminhamos para uma noite sem perspectivas de um novo amanhecer. Chegamos a um estágio muito avançado em percepção do que poderíamos chamar de essência do belo e, ao mesmo tempo, avançamos perigosamente para o limite do que nosso habitat, o belo e azul planeta Terra, pode suportar. Alastramos nossa voracidade com tal frenesi que, por onde passamos, deixamos um rastro de morte e desolação. A grande massa humana que hoje convive, cada um percebendo apenas suas próprias necessidades, deixou-se cegar pela intensa luz do seu próprio egoísmo.

18 de abril de 2011

CRÔNICAS - A construção da violência (Gil Salomon).

A CONSTRUÇÃO DA VIOLÊNCIA
Gil Salomon
gilsalomon2000@yahoo.com.br


Ouço “Clair de Lune”, de Claude Debussy. Dirijo-me à janela para ver a lua, mas abrindo-a sinto no rosto o vento frio e algumas gotas de chuva. Fecho meu casaco e sinto um arrepio, daqueles de gelar até os ossos. Respiro o medo da cidade.
Até a pouco falávamos na velocidade com que recebíamos as notícias do mundo. Hoje as recebemos em tempo real. Assistimos ao vivo os bombardeios de Bagdá, os tiroteios nas favelas cariocas, as missas do Papa, os papos sem conteúdo do “Big Brother Brasil”, terremotos, etc, etc, etc... Desenvolvemos uma curiosidade mórbida pela violência, protegidos frente as nossas telas de alta resolução, comendo salgadinhos e tomando a bebida da moda. Os dirigentes do espetáculo garantem, em longos discursos, que toda violência se justifica na busca eterna da paz. Paz jamais alcançada, ou, se alcançada é por pequenos períodos de tempo.
Somos, conforme muitas tradições religiosas, a imagem e semelhança de deus, o supra-sumo da criação, o mais alto grau evolutivo das espécies que habitam este planeta e, ao nascermos, somos comparados a inocentes anjinhos. O que nos transforma em adultos violentos, destituídos de qualquer sentimento ou compaixão? Falamos muito em amor, comercializamos produtos em nome do amor, mas não amamos nem a nós mesmos, pois se o fizéssemos não nos degradaríamos tanto na busca de objetivos que apenas nos animalizam, que buscam apenas a satisfação dos nossos mais baixos instintos, instintos que, por termos a capacidade de dominá-los geram o diferencial em relação aos demais seres vivos. Nos animais os instintos não produzem violência, servem para a preservação da espécie, nos seres humanos quando colocamos nossa inteligência a serviço dos instintos criamos monstros que colocam em risco a sobrevivência da própria terra.
Num exame de consciência descobrimos que nos tornamos filhos do medo. Desde o nascimento somos cercados pelo medo, o medo dos nossos pais que temem que não sobrevivamos, o medo que se esqueçam de nos aplicarem as vacinas corretas, o medo de que nos sufoquemos durante o sono. Mais tarde o medo de que possamos nos machucar ao darmos os primeiros passos, o medo de que não estejamos dentro dos parâmetros da normalidade e assim por diante. Nossas primeiras lembranças são de milhões de nãos: não pegue nisso que dá choque, não suba aí que você poderá cair, não fale essas palavras que são feias, não coma isso, pois lhe fará mal. De não em não crescemos e conosco cresce o medo, e o medo nos coloca na defensiva ou no ataque preventivo. Acreditamos piamente que a melhor defesa é o ataque. Vivemos competindo uns com os outros. Adultos, desenvolvemos outros medos: de nos acharem diferentes, de não vencermos profissionalmente, de não sermos atraentes sexualmente, de contrairmos alguma doença, de enfrentar os mistérios da existência e das suas razões, o medo do que nos reserva a morte - e assim de medo em medo construímos nossa personalidade e nosso caráter, ou a falta dele. A soma de todos esses medos nos torna violentos e agressivos. Agredimos os colegas de trabalho na busca de posições superiores e melhor remuneradas; agredimos os semelhantes nas mais diversas situações: seja no trânsito, na fila de banco, num supermercado. Agredimos nossos familiares impondo nossas idéias, nossas vontades. Matamos desta forma qualquer possibilidade de ternura e compaixão que poderiam nos libertar deste círculo vicioso que criamos ao alimentar nossos medos.

24 de março de 2011

Crônica - E Nós Calamos... (Gil Salomon)

E NÓS CALAMOS...
 Gil Salomon -  Escritor
gilsalomon2000@yahoo.com.br

            Após uma longa e cinzenta temporada de dias chuvosos, finalmente, amanheceu um dia ensolarado. Abri as janelas da casa, respirei o ar fresco que ainda trazia o cheiro de chuva, de umidade. É interessante como a luz levanta nosso astral. Banhada pelo dourado do sol a natureza toda parece em festa. Nesses momentos esquecemos toda a loucura que a vida nos força a encarar. Esquecemos, inclusive, que tudo o que conhecemos como expressão da vida, flutua sobre tão frágeis cascas, sobre um oceano de lava. Nos últimos meses vimos, nos noticiários, que parte do planeta está sofrendo com terremotos. Primeiro no Haiti, depois no Chile, Turquia e agora no Japão. A pergunta que me faço é por que, mesmo sabendo que essas regiões estão sujeitas a terremotos, ainda se constrói sem prever tais eventos, gerando com isso tantas perdas em vidas humanas e, obviamente, tanto sofrimento. Felizmente, nós brasileiros, não sofremos tais cataclismas, mas mesmo assim, criamos nossos próprios. Todos ainda lembramos das chuvas de 2008, 2009, 2010, 2011, dos desmoronamentos, das montanhas vindo abaixo, das tantas vidas e bens sacrificados. Percebo entretanto que não aprendemos nada, pois basta um olhar mais atento aos nossos morros, sim, os morros de Schroeder, Jaraguá, Guaramirim e demais cidades próximas. Não precisamos ir longe, basta abrirmos nossas janelas e, com certeza, veremos a terra vermelha, como carne viva, aparecendo na forma de cortes nos morros. Em algum momento, próximo ou no futuro, a natureza tentará se acomodar e, mais uma vez sofreremos as consequências dos nossos atos.
            Temos, aqui em nossa região, muitos empresários, atuando no ramo imobiliário, que tratam a natureza como mercadoria. Tais empresários são como um câncer, ou melhor, como lepra, que, lentamente, se espalha sobre nossa paisagem. Nas minhas caminhadas e passeios percebo que desenvolveram uma forma muito sutil de desmatarem, sem qualquer licença ambiental, creio eu, pois começam a roçar por baixo e, de preferência, de forma não visível das ruas ou estradas, e quando nos damos conta já desmataram. Alguns ainda se dão ao trabalho de plantar palmeiras, palmeira real creio eu, caracterizando assim como atividade agrícola o que não passa de projeto imobiliário.
            Lamento dispor do meu tempo para tais observações, pois gostaria de escrever sobre coisas mais positivas, mas creio que nós, todos nós, precisamos nos indignar com o que está acontecendo, pois amanhã pagaremos um preço muito alto pelo descaso atual. Vamos, pois, cobrar dos nossos políticos já que somos nós que pagamos os salários deles. Não podemos mais calar, pois calando estaremos sendo coniventes com a destruição ambiental que está ocorrendo. De nada adianta vestirmos camisetas pedindo a preservação dos micos-leões-dourados ou dos pandas, se não  nos preocupamos em salvar as pererecas que habitam nossas florestas ou as saracuras dos nossos banhados. Temos atualmente tecnologia e maquinário suficiente para ocupar a terra de forma a preservar e respeitar as demais formas de vida. Não prego nenhuma volta ao passado, mas sim uma forma inteligente e harmônica de nos relacionarmos com o que nos cerca. A mesma região, com suas cachoeiras, suas figueiras centenárias, se descuidarmos,  ocupará as manchetes dos jornais em futuras e previsíveis tragédias ambientais. Já que nossos órgãos fiscalizadores não dispõem de pessoal para dar conta do recado nós, cidadãos, precisamos botar, literalmente, a boca no trombone. Não podemos mais calar...

17 de março de 2011

Crônica - Tabus (Gil Salomon)

TABUS
Gil Salomon
escritor
gilsalomon2000@yahoo.com.br

Mais um carnaval passou e já estamos na Quaresma. Quaresma lembra sacrifícios, renúncias, jejuns, sofrimento e, principalmente, aceitação da doutrina oficial das religiões cristãs. Quando falo em aceitação, sem questionamentos, quero deixar claro que essa não é uma condição somente das religiões cristãs, mas de todas as grandes religiões. Cada uma delas sustenta suas preconizadas verdades baseando-se em seus livros sagrados. Temos a Tora judaica, a Bíblia cristã e o Alcorão islâmico como principais representantes das religiões ocidentais. Cada um desses livros, considerados sagrados, ou fruto de revelação divina, teve, no correr dos tempos, as mais diversas e bizarras interpretações. No oriente também temos exemplos de livros sagrados, os Vedas, que foram usados para manter o status de uma sociedade dividida em castas, o destino das pessoas vinha determinado de berço, sem chances de mudanças na vida presente.
            Quem leu o primeiro parágrafo talvez esteja se questionando, querendo entender onde pretendo chegar. Qualquer pessoa que analisar nossa história perceberá que em nome das religiões cometeram-se atrocidades contra nossos irmãos. O terrível nessa análise é percebermos que, quase sempre, calamos quando o assunto envolve religião. Triste é percebermos que essa cultura do sofrimento continua viva e, para muitos, é considerada como a única forma de salvação.
            O tema é extremamente atual. O monsenhor polonês Slawomir Oder, em livro lançado na Itália, com o título “Por que um Santo?”, revelou que o Papa João Paulo II se autoflagelava. Segundo o monsenhor, o Papa possuía um cinto com o qual se açoitava quando estava só e costumava dormir no chão, para penitenciar-se e assim, através do sofrimento corporal, se aproximar do martírio de Cristo. Tal prática é também conhecida como ascese, uma forma radical de expurgar pecados. Difícil é entender como alguém com a bagagem cultural de João Paulo II ainda se submetia a práticas, diria medievais, sendo ele representante de Deus aqui na Terra, segundo as crenças católicas, obviamente. Que Deus é esse, pergunto eu, que se compraz com o sofrimento dos seus filhos? Por que essa fuga do prazer praticada por tantas religiões e culturas?
            Em pleno século 21, vários países da África e da Ásia, ainda praticam a Mutilação Genital Feminina, também conhecida como Excisão ou Circuncisão Feminina, que consiste na remoção do clitóris e dos lábios vaginais das meninas, a partir dos cinco anos de idade, e tem como objetivo único evitar que tenham, quando adultas, qualquer prazer sexual. Numa conferência realizada no Cairo, Egito, estimou-se que 120 milhões de crianças e mulheres africanas já foram submetidas à circuncisão, ou seja, à mutilação genital.
            Qual a relação entre o cinto do Papa e a mutilação genital feminina? Creio que ambas as situações são fruto da nossa cultura sempre tão pronta a valorizar o sofrimento ao invés do prazer. Quem não conhece o provérbio “muito riso, pouco siso”? Pois ele é reflexo de uma época em que até rir era pecado. Temos atualmente, em nosso pequeno e sofrido planeta os dois extremos convivendo. De um lado, a busca desenfreada do prazer, a qualquer custo, e por outro lado ainda presenciamos práticas primitivas, que creio eu, não ajudam em nada no crescimento do que temos de mais belo ao cultivarmos o potencial amoroso e de compaixão possíveis. Precisamos rever os tabus que nos impedem de questionar alguns assuntos por se tratarem de temas religiosos.

6 de março de 2011

Crônica - Caminhadas (Gil Salomon)


CAMINHADAS
Gil Salomon
escritor
gilsalomon2000@yahoo.com.br

            O poeta e o cão caminham. Há dúvidas sobre quem leva quem. Ora é o cão arrastando o poeta, logo mais é o poeta incitando o cão a lhe seguir. Há, porém certos momentos em que as patas do cão e os pés do poeta formam como que outro ser, um ser de seis patas, atravessando a noite e a vida extremamente solitário. Ambos andam e se sentem deslocados, subtraídos dos seus mundos. O poeta cavalga nuvens, quer alcançar as estrelas. O cão carrega uma lembrança atávica de muita neve, grandes geleiras e uma necessidade imperiosa de correr pelo branco vazio dos pólos. Tanto o cão quanto o poeta sonham possibilidades nunca vividas, apenas pressentidas como possíveis. Tanto o poeta quanto o cão não sabem por que cá estão, sentem apenas que há um longo e estranho caminho que deve ser percorrido, visto, cheirado e vivido intensamente.
            Longe, perdido entre os morros de sua cidade, ou aldeia, como o poeta prefere chamar seu pequeno mundo, há música, alguém ensaia uma canção nova, uma tentativa de cantar a estranha realidade sensorial que chamamos de vida. O poeta soube que Mercedes Sosa, a grande voz das Américas, se calou, mas outras vozes se erguerão, certamente, e cantarão, ele espera, “gracias a la vida”. O vento frio no rosto marcado do poeta conta histórias de tantos mundos, tantas vidas. O caminho do cão e do poeta é cercado de casas fechadas, cheias de pessoas quem temem abrir as janelas que lhes ponham em contato com o universo, pois o lado de fora de suas portas e janelas lhes parece hostil, jamais colocariam seus pés no chão, preferem a realidade esterilizada das notícias que lhes são transmitidas em aparelhos de alta definição. Observam o poeta e o cão que passa e sentem a estranheza do mistério que os leva a caminhar e sentem medo.
            As pessoas temem o poeta, pois a poesia as leva a regiões da alma que não ousam perscrutar. Seus corações batem descompassados ante o medo de que o vento passe a poesia dos pés, do poeta que caminha, pelas frestas das suas seguras casas. Os passos do poeta lhes soam como o canto das sereias, um terrível chamado ao mergulho ao fundo de mistérios apenas pressentidos. Uns poucos, escondidos na penumbra das cortinas de renda, respiram profundamente e ousam, apenas por um momento, sonhar. São, porém, logo recapturados pelos televisores e pelos controles remotos momentaneamente esquecidos em suas poltronas. Quem precisa caminhar e sonhar se, ao toque de alguns botões, pode trazer centenas de canais para dopar sua mente, as mais variadas formas de ilusão ao seu dispor, todas prometendo algo, mas também silenciosamente sugando todo o vigor de sua vida?
            Há noites, porém, em que o poeta e o cão atravessam verdadeiras tempestades. Ventos, raios e trovões prenunciam chuva forte. Ouvem a água que se aproxima para lavar seus corpos e almas. O poeta recebe no rosto as primeiras gotas e começa a cantarolar alguns versos tristes: “gostaria de morrer, como morrem as nuvens, chover meus restos sobre um campo seco, depois brotar feito flor selvagem, uma rosa ainda não vista, cor veludo-sangue, fragrância ilusão, em cada espinho uma lança a me defender de mãos intrusas que me tentem colher, não quero ser flor de capela, nem de morto, nem de lapela, a mim basta simplesmente ser néctar para uma borboleta ou um sonho na cabeça de um poeta”.
            Assim os olhos do poeta e os olhos do cão são inundados por lágrimas de chuva, mas quem poderá saber o que são lágrimas e o que é chuva? Como adivinhar as angústias que povoam o espírito do poeta e a alma do cão?

25 de fevereiro de 2011

Crônica - Consumatum Est (Gil Salomon)

CONSUMATUM EST
Gil Salomon
escritor
gilsalomon2000@yahoo.com.br

Ruídos. Minha vida é um deserto repleto de sons. Portas rangem. O coração forçando o sangue a me percorrer. Flautas e violinos mozartianos. Cães ladram para a lua que ainda não apareceu. Soluço. Abro meu peito e tento arrancar o sentimento que me sufoca, mas não ouso tocá-lo. A vida não teria sentido sem esse amor temperado com o ardor da paixão. Choro? Sim, choro. Dos olhos fluem lágrimas ácidas que corroem meu rosto. Trago na alma e no corpo as marcas dessa busca angustiante. Atravessei eras a tua procura e agora, que estás há um toque das minhas mãos eu não consigo te tocar. Preciso tanto te abraçar. Meus dedos querem acariciar tua pele. Meus lábios sussurram teu nome. A soma do um mais um, que somos, terá que ser infinitamente maior que dois. Um poeta escreveu que a borboleta é uma flor com uma abelha dentro. Tu és alguém com um anjo dentro. O ser que me habita ama profundamente esse anjo, e o homem que sou ama quem és apaixonadamente. Já não sei o que fazer das minhas longas noites insones, das madrugadas em que caminhas nos meus “entressonhos” e dos dias que se arrastam lentos em direção à noite eterna. Logo sairei para mais um dia, romperei as brumas matinais em direção ao sol, ao céu azul. Curioso como o sol do final de outono se parece com o sol dos primeiros dias de primavera. A diferença é que o sol de outono prenuncia o inverno, dias gelados e solitários, talvez. Quem escreveu a fórmula do mel? Provavelmente foi quem nos inscreveu nessa ópera bufa que é a vida. Tateamos às cegas procurando entender o enredo, mas quando pressentimos um pequeno facho de luz, que poderia clarear as coisas percebemos, também, que as cortinas estão a se fechar.
O apito irritante do guarda noturno invade meus pensamentos dando uma falsa sensação de segurança. Que segurança nós procuramos afinal? Não sabemos nem se nosso coração baterá daqui a alguns segundos, mas nos iludimos procurando sempre a maldita zona de conforto que, enganosamente, nos promete o futuro que almejamos. Grande parte dos que descansam suas vazias cabeças em macios travesseiros não sabe nada além da monotonia dos dias que se repetem. Não ousam nada, apenas procuram se enquadrar nas medidas que lhes são propostas. Sentem o desconforto do leito de Procusto, mas falta-lhes coragem para assumirem que realmente são.
Torna-te quem tu és, disse Friedrich Wilhelm Nietzsche. Mas quem somos nós afinal? Tantos procuram nos definir, mas raramente paramos para lançar um olhar para dentro de nós. Sufocamos nossos sentimentos mais profundos. Tememos até nossos pensamentos, pois podem, de repente, como um espelho, refletir quem somos realmente. Preenchemos nossos dias com mil sons e imagens. Dopamos e embriagamos nossas almas e navegamos pela vida nos enganando, achando que realmente tomamos as decisões que norteiam os dias tão curtos que vivemos. Trabalhamos avidamente, pois afinal sempre nos falaram que o trabalho dignifica. Acumulamos bens ou dívidas e seguimos curvados pelo peso das muitas responsabilidades que cremos ter. Planos de saúde, aposentadorias, carnês, contas, contas e contas...
Mas eis que um dia abrimos os olhos e vemos parada à nossa frente uma velha senhora, a dona da foice que nos ceifará. Relembramos os dias pregressos e percebemos que fizemos tão pouco, mas então será tarde. Consumatum est... Saímos da vida sem saber se teremos outra chance.

21 de fevereiro de 2011

Crônica - Ame e Dê Vexame (Gil Salomon)

AME E DÊ VEXAME...

Gil Salomon
escritor
gilsalomon2000@yahoo.com.br

O título acima não é meu. Trata-se do título de um dos livros de Roberto Freire, escritor, dramaturgo, cineasta, roteirista de TV, jornalista, psiquiatra, terapeuta e, um “militante do tesão”, como se definia. Freire nasceu em São Paulo em 1927 e encerrou sua militância pela anarquia e pela liberdade em 2008. Tenho em mãos o livro “Ame e Dê Vexame” e ao lê-lo percebo a importância das reflexões do autor sobre um tema sempre atual: o amor. Ele trata das dificuldades de sua concretização na vida dos jovens, principalmente, submetidos a repressões familiares e sociais típicas de sociedades burguesas e autoritárias. Ele trata com humor e jovialidade todas as formas possíveis de superação dos obstáculos que dificultam o amor humano: “Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários”.
Freire revela como o medo do ridículo é imposto, pelo autoritarismo social, sobre os jovens, impedindo a concretização de sonhos e desejos originais e audaciosos. Mostra por que é tão difícil a realização amorosa plena e soberana numa sociedade regida pela imposição de normas morais que engessam a liberdade individual.
Tanto já se escreveu sobre o amor, mas ainda não nos permitimos um amor livre. Permitimos que as religiões e os mecanismos de dominação social nos definam como amar e, assim sendo, transformamos o amor que poderia nos libertar em correntes que nos amarram a pseudo situações mascaradas com nomes como “amor a Deus”, “amor ao próximo”, “amor conjugal” – reduzido a um mero contrato civil entre duas genitálias – “amor familiar” e assim por diante. Esquecemos completamente que o amor é um só e muito maior que qualquer rótulo.
Temos o péssimo hábito de achar que o amor nos obriga a algo quando, de fato, o amor é a expressão da mais plena liberdade. Somente nos tornamos aptos a amar quando assumimos nossa liberdade e respeitamos a liberdade dos que convivem conosco. Frederick Perls, conhecido também como Fritz Perls, escreveu um pequeno texto conhecido como a “Oração da Gestalt”, que diz o seguinte: “Eu faço as minhas coisas e você faz as suas. Não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas e você não está neste mundo para viver as minhas. Você é você, eu sou eu. E se por acaso nos encontrarmos será maravilhoso. E se não, não há nada a fazer”.
Gilberto Gil escreveu uma música que traduz muito bem essa idéia de liberdade. Foi gravada pelos Doces Bárbaros e diz o seguinte: “O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar. O seu amor, ame-o e deixe-o ir aonde quiser. O seu amor, ame-o e deixe-o brincar. Ame-o e deixe-o correr. Ame-o e deixe-o cansar. Ame-o e deixe-o dormir em paz. O seu amor ame-o e deixe-o ser o que ele é”.
O tema do amor é tão vasto que não cabe numa crônica. Deixo como reflexão mais um pensamento do Roberto Freire: “Para se viver um amor inteiro, livre e nem um pouco sadomasoquista, sem nenhum sacrifício, é preciso ter a coragem do ridículo, de assumir coisas aparentemente absurdas e incomuns. Porque cada um tem uma forma original e pessoal de amar, se é realmente livre. Ser livre é muito mais difícil do que alcançar o prazer sexual. A repressão sexual nas crianças e nos jovens não visa diminuir-lhes o prazer em si, mas, sobretudo, de modo indireto, o que se pretende é mesmo reduzir sua liberdade, para ser mais fácil dominá-los e conduzi-los”. Que todos tenham uma boa reflexão sobre o amor.