6 de setembro de 2012

Voltando ao passado - A Casinha - por Patrícia Grah



Era um lindo dia de inverno. O sol brilhava e aquecia, dando a sensação de verão, não fosse o vento gelado. Como era fim de tarde, formou-se uma visão magnífica, o sol gigante se punha atrás da montanha. 

Viajávamos por uma estrada muito conhecida pelo número de mortes que acontecem ali, apesar de ser algo preocupante, isto não mexeu comigo, o que mexeu foi algo que ninguém mais no carro reparou: uma velha casa abandonada. 

Lugares abandonados, de um modo geral sempre balançam a minha imaginação, bem como as casas perto da lagoa de Barra Velha. Fico balançada toda vez que passo ali, me fazendo as mesmas perguntas que me fiz ao ver esta casinha. 

Mas aquela ali foi mais especial. Era uma casa bastante humilde, antiga e convencional para a época. Retangular, poucas janelas, uma porta de entrada bem simples, sem pintura, sua cor já não era mais cinza como é o cimento, e sim marrom, como é a poeira. 

Um pequeno córrego passa entre a casinha e o asfalto, impedindo o acesso até ela. Intrigou-me este fato e fiquei pensando qual seria o motivo de terem a abandonado. “Certamente aquela casinha carrega muitas histórias [...]”, pensei. 

Desde criança, ao desenhar uma casa, estas eram as características que eu costumava destacar em meus desenhos, exceto a sujeira. Mas sempre havia o sol, as árvores e uma casinha convencional, com uma porta e duas janelas – idêntica à da beira da estrada. 

Vendo esta cena, não pude deixar de retornar à minha infância, aonde a simplicidade reinava absoluta, não somente pelo fato de não saber desenhar, mas também de acreditar que era numa simples casinha, junto aos meus, que se resumia a felicidade. 

Eu não tinha nenhum aparelho eletrônico, exceto mini games e bonecas que choravam ao tirar o bico. Eu não tinha celular e nem computador, mas tinha um karaokê da XUXA aonde eu me gravava cantando. Brincava com as crianças vizinhas na rua até o cair da noite. Tenho cicatrizes nos joelhos que mostram o quanto fui feliz. 

O tempo passa e vamos perdendo certos valores – construindo outros. Mas por quê é que aquela casinha no pé da montanha deixou de ser encantadora, dando lugar à muitas ostentações e superfluidades que nos são enfiadas de goela a baixo juntamente ao capitalismo¿ 

Crianças não querem dinheiro, não querem ostentações. Para elas, no meu tempo, FELICIDADE poderia ser uma tarde ensolarada brincando no pé de árvore. Era roubar fruta no terreno vizinho, sentir o cheiro de pão fresco que a mãe / vó assava e esperar ansiosamente que ele esfriasse para comer uma fatia com margarina barata. Era esperar o natal com um frio na barriga, imaginando qual boneca ganharia e como seria o passeio na casa dos parentes. 

E hoje, somos felizes fazendo isto¿ 

Penso que para termos um mundo mais humano, é preciso de vez em quando resgatar a criança que há dentro de cada um de nós, igual ao tempo em que desenhávamos a nossa casinha...



3 comentários:

Que bom seria se pudéssemos voltar ao passado, ao tempo em que éamos criança! Sabemos que não é possível, mas certas coisas muitas vezes nos fazem viajar e voltar no tempo, como se pudéssemos por alguns instantes sentir essa maravilhosa sensação...

Emocionante! Esse texto causa uma nostalgia muito boa a quem lê, de um tempo que não existe mais. Parabéns!

Obrigada Robert! Você também tem este dom! Beijo

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